Uma investigação interna envolvendo a Receita Federal aprofundou o clima de tensão institucional entre ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Magistrados suspeitam que dados fiscais sigilosos tenham sido acessados de forma irregular, enquanto investigadores temem ser responsabilizados pelo escândalo ligado ao Banco Master.
A apuração foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes após indícios de acessos indevidos a informações fiscais de cerca de 140 pessoas, incluindo familiares de magistrados. Segundo nota oficial do tribunal, foram identificados “diversos e múltiplos acessos ilícitos” ao sistema, seguidos de possível vazamento de dados.
Entre integrantes da corte, há suspeita de que auditores tenham repassado informações sem autorização judicial para investigações conduzidas pela Polícia Federal. Caso isso seja comprovado, o procedimento pode gerar questionamentos jurídicos capazes de comprometer provas e afetar processos relacionados ao escândalo financeiro.
Quatro servidores do Fisco foram alvo recente de operação policial sob suspeita de quebra de sigilo. O rastreamento interno confirmou indícios de acesso irregular e transferência de dados a terceiros. Apesar disso, aliados do governo afirmam que não há participação da cúpula da Receita e defendem que o episódio não pode ser usado para invalidar investigações em andamento.
Os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes estão entre os mais incomodados com os vazamentos. A crise se intensificou após a relatoria do caso ser transferida para André Mendonça, indicado ao tribunal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, movimento visto como tentativa de afastar suspeitas de interferência política.
Em paralelo, o diretor-geral da PF entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, relatório com dados extraídos do celular do empresário Daniel Vorcaro, apontado como figura central no caso. Segundo aliados do Planalto, o foco deveria permanecer nas supostas irregularidades financeiras atribuídas ao empresário, estimadas em mais de R$ 55 bilhões, incluindo prejuízos ao BRB, cujo rombo pode ser coberto com recursos do Governo do Distrito Federal.
A ordem de investigação surgiu após reportagem do jornal O Globo revelar detalhes de contratos e evolução patrimonial relacionados a pessoas próximas a ministros. Desde então, o ambiente interno no STF se deteriorou, e decisões recentes passaram a restringir o compartilhamento de documentos apenas a investigadores diretamente ligados ao caso.
Nos bastidores, interlocutores do governo avaliam que a prioridade deve ser evitar um conflito aberto entre instituições e impedir que a disputa comprometa investigações sensíveis. Ainda assim, a crise já é vista por analistas como um dos momentos mais delicados de tensão entre órgãos de Estado nos últimos anos.