O Brics divulgou neste domingo (6) a declaração final da cúpula realizada no Rio de Janeiro, que marcou o primeiro encontro do grupo após sua ampliação em 2024. O documento condena os recentes ataques ao Irã, critica tarifas comerciais adotadas pelos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump e reforça a importância de mecanismos financeiros que reduzam a dependência do dólar.
A cúpula também evitou críticas diretas à Rússia pela guerra na Ucrânia, reforçando o alinhamento político entre os países do bloco. A reunião contou com a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reuniu Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e os novos membros Irã, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Indonésia.
Condenação aos ataques e críticas veladas aos EUA
Sem citar diretamente Estados Unidos e Israel, o Brics repudiou os bombardeios sofridos pelo Irã em junho. As ações militares, lideradas por forças americanas, miraram instalações nucleares iranianas sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba nuclear, o que Teerã nega.
“Condenamos os ataques militares contra a República Islâmica do Irã desde 13 de junho de 2025, que constituem uma violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas”, diz a declaração. O texto também manifesta “profunda preocupação” com o risco de escalada no Oriente Médio.
O documento critica ainda o uso de sanções econômicas sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, em referência velada às punições aplicadas pelos EUA e União Europeia contra Rússia e Irã.
Brasil e Índia avançam em apoio ao Conselho de Segurança
O Brasil garantiu uma vitória diplomática ao obter o apoio explícito de China e Rússia para sua histórica demanda por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. A declaração final ressalta que a reforma do Conselho é necessária para ampliar a voz do Sul Global.
Apesar do avanço, o texto não cita apoio de todo o bloco, refletindo divergências internas com os novos membros africanos que resistem ao destaque dado à África do Sul.
Críticas às tarifas e defesa do multilateralismo
O Brics condenou o que chamou de “proliferação de ações restritivas ao comércio” e criticou tarifas impostas sob o pretexto de objetivos ambientais, numa referência às medidas protecionistas adotadas por Trump.
“O protecionismo ameaça reduzir ainda mais o comércio global”, diz o documento, que também defende o fortalecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Financiamento em moedas locais e IA
O bloco voltou a discutir o uso de moedas locais no financiamento de projetos pelo Banco dos Brics, como forma de reduzir a dependência do dólar. Lula destacou que 31% das operações já utilizam moedas dos próprios países.
Outro ponto de destaque foi a defesa da regulação global da inteligência artificial. Em contraste com a posição americana, o Brics reforçou a necessidade de mitigar riscos e proteger direitos autorais no ambiente digital.
Guerra na Ucrânia e críticas a Israel
Sobre a guerra na Ucrânia, o bloco manteve a postura de não condenar a Rússia, apenas reiterando “as posições nacionais” dos membros. Por outro lado, foi mais contundente em relação a Israel, criticando os bloqueios humanitários em Gaza e o “uso da fome como método de guerra”.
O Brics defendeu a criação de um Estado palestino com base nas fronteiras de 1967 e Jerusalém Oriental como capital.
Novo perfil do Brics
A ampliação do bloco para 11 países tem gerado críticas no Ocidente, que acusam o grupo de se tornar “antiocidental”. Os membros, porém, afirmam que o Brics busca fortalecer o multilateralismo e dar voz ao Sul Global.