A América Latina vive um momento de rearranjo político marcado pelo crescimento de forças conservadoras e de extrema direita em diferentes países da região. Especialistas apontam que fatores como aumento da criminalidade, crise econômica persistente, pressão migratória, desgaste de governos tradicionais e forte rejeição ao sistema político têm impulsionado o eleitorado a optar por alternativas à direita do espectro ideológico.
Nos últimos anos, vitórias eleitorais de líderes conservadores reforçaram esse cenário. A eleição do economista libertário Javier Milei, na Argentina, em novembro de 2023, e, mais recentemente, a vitória do advogado José Antonio Kast no Chile, em dezembro deste ano, são exemplos de uma tendência que se soma a processos políticos semelhantes observados em outros países do subcontinente.
Para o cientista político Michael Albertus, professor da Universidade de Chicago, a região apresenta atualmente um equilíbrio instável entre governos de esquerda e de direita, mas com sinais claros de inclinação conservadora. “Há países governados pela esquerda, como Brasil e Colômbia, e outros sob liderança da direita, como Argentina e Equador. Ainda assim, é possível identificar uma tendência crescente em direção à direita na América do Sul”, avalia.
Albertus destaca que essa movimentação não ocorre de forma homogênea. “Cada país tem motivações específicas. Na Argentina, o deslocamento à direita está relacionado a uma profunda crise econômica e à descrença nas elites políticas tradicionais. Já em outros contextos, como o Chile, pesam fortemente questões de segurança pública e insatisfação social”, explica. O pesquisador também aponta que o aumento da criminalidade e a imigração — especialmente de venezuelanos — têm sido explorados politicamente por candidaturas conservadoras.
Dinâmica regional em transformação
Na avaliação de Néstor Castañeda, diretor do Instituto das Américas da University College London (UCL), a América do Sul atravessa um período de intensa volatilidade política. “Há uma coexistência de governos de esquerda e de direita, mas eleições recentes indicam um novo impulso para forças conservadoras ou de centro-direita”, afirma. Segundo ele, os pleitos previstos para 2026 no Brasil, na Colômbia e no Peru serão decisivos para confirmar ou frear essa tendência.
Castañeda observa que o avanço conservador está associado a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. “Desafios econômicos persistentes, insegurança, frustração com governos anteriores e o desejo por renovação política alimentam essa mudança. Além disso, a influência do cenário político internacional, especialmente dos Estados Unidos, também exerce impacto sobre o eleitorado latino-americano”, analisa.
Já o cientista político Mariano Fraschini, professor da Universidade de Buenos Aires (UBA) e da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), ressalta que a análise deve considerar ciclos históricos mais longos. “A América Latina passou por diferentes fases: a redemocratização nos anos 1980, o neoliberalismo nos anos 1990 e um forte giro à esquerda no início do século 21. O momento atual indica um retorno a uma agenda neoliberal em vários países”, afirma.
Segundo Fraschini, embora haja a percepção de avanço da direita, os dados eleitorais revelam um quadro mais equilibrado. “Entre dezenas de eleições recentes, observa-se um empate relativo entre forças progressistas e conservadoras. O que se destaca, porém, é a dificuldade dos governos de situação em se reelegerem. O eleitor latino-americano tem demonstrado forte tendência a punir o oficialismo”, explica.
Rejeição ao status quo e riscos à democracia
Os especialistas concordam que a ascensão da extrema direita está fortemente ligada à rejeição das elites políticas tradicionais e à percepção de ineficácia dos governos diante de problemas estruturais. “Há uma associação recorrente entre crime e imigração, além do uso de discursos nacionalistas e antipolítica”, aponta Albertus. Para ele, parte do eleitorado tem se mostrado disposta a apoiar lideranças que desafiam normas democráticas como forma de protesto contra o sistema.
Castañeda acrescenta que muitos desses líderes conquistam apoio ao se apresentarem como outsiders e ao oferecerem soluções simplificadas para problemas complexos. “Esse fenômeno reflete uma polarização crescente e um ambiente político cada vez mais instável na região”, avalia.
Diante desse cenário, analistas alertam que o avanço conservador na América Latina não pode ser compreendido apenas como uma guinada ideológica, mas como um reflexo direto do descontentamento social, da fragilidade institucional e da busca do eleitorado por respostas imediatas a crises prolongadas. O desfecho desse movimento dependerá, em grande parte, da capacidade dos governos — sejam eles de direita ou de esquerda — de responder às demandas por segurança, estabilidade econômica e representação política efetiva.