Brasília foi tomada por uma multidão neste domingo (7) durante o Levante Mulheres Vivas, um ato nacional convocado após uma sequência brutal de feminicídios que chocou o país. Mesmo sob forte chuva, milhares de mulheres — acompanhadas por apoiadores e lideranças políticas — ocuparam a área da Torre de TV para denunciar a escalada da violência de gênero e a falta de ação do Estado.
O protesto também ocorreu simultaneamente em outras capitais brasileiras.
“Nem a morte irá nos calar”
O ato foi marcado por discursos fortes. A assistente social e rimadora Elisandra “Lis” Martins emocionou o público com versos denunciando estupros corretivos, agressões e assassinatos que seguem impunes.
“Querem nos manter de bocas fechadas, mas nem a morte irá nos calar. Mulheres vivas!”, afirmou durante a Batalha de Rimas no centro de Brasília.
Críticas diretas ao sistema de Justiça
Ativistas denunciaram que o Estado falha na proteção e na prevenção da violência contra as mulheres. A doutora em ciências sociais Vanessa Hacon afirmou que o sistema de Justiça frequentemente revitimiza mulheres e ignora pedidos de medidas protetivas.
“As mulheres saem de casa para se livrar da violência e vão parar dentro do sistema de Justiça, onde a violência processual é intensa e absurda”, disse ela.
Segundo Vanessa, denúncias são deslegitimadas com estereótipos machistas como “mulher ressentida” ou “vingativa”.
Ministras, deputadas e Janja marcam presença
O ato contou com a participação de um ministro e seis ministras — entre elas Cida Gonçalves, Anielle Franco e Gleisi Hoffmann — além de deputadas federais e da primeira-dama Janja Lula da Silva.
Para as representantes do governo, a violência de gênero exige respostas urgentes, orçamento adequado e políticas permanentes.
“É uma epidemia de feminicídios”
Lideranças afirmaram que a estrutura patriarcal da sociedade alimenta o ciclo de violência. Leonor Costa, do Movimento Negro Unificado, lembrou que os recentes casos “absurdos” de feminicídio desencadearam a mobilização em massa.
“É fundamental que haja políticas públicas que freiem esse nível de violência”, afirmou.
Homens também foram convocados ao debate
Embora formado majoritariamente por mulheres, o protesto reuniu muitos homens. A escritora Renata Parreira destacou que eles também precisam assumir responsabilidade no combate à violência.
“É preciso convocar os homens a refletir sobre sua masculinidade e se tornarem aliados nesta luta”, disse.
Economia e sobrevivência
A empreendedora Aline Karina Dias ressaltou que a dependência financeira mantém muitas mulheres presas em relações violentas.
“A questão econômica é uma ferramenta de emancipação. Muitas morrem por falta de emprego e moradia”, afirmou.
Casos recentes que motivaram o Levante
Os protestos foram impulsionados por crimes chocantes que dominaram o noticiário:
Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada por cerca de 1 km, teve as pernas mutiladas.
Duas funcionárias do CEFET-RJ foram assassinadas a tiros no próprio local de trabalho.
Maria de Lourdes Freire Matos, cabo do Exército, teve o corpo carbonizado após ser morta por um soldado que confessou o crime.
Números que assustam
Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero:
3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica no último ano.
1.459 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024 (média de 4 por dia).
Em 2025, o país já ultrapassou 1.180 feminicídios.
O Levante Mulheres Vivas pretende transformar a dor coletiva em pressão por políticas públicas, proteção efetiva e mudanças estruturais na sociedade.